Até ai, pura e fria mensuração econômica. O que chama a atenção são as interpretações dessas informações e o que elas revelam do imaginário brasileiro. Começando pelo depoimento do ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, que afirmou que "o país ainda levará de 10 a 20 anos para atingir o padrão de vida europeu".
| Fig 1. Ver referência. |
Se bem é verdade que o país marcado por desigualdades profundas, estruturais, que não podem ser superadas do dia para a noite, a referência ao "padrão de vida europeu" expressa de forma muito clara o complexo de colonizado do Brasil frente aos países europeus. Não fosse essa fixação com o estado de bem-estar "de padrão europeu", o país não precisaria de referências externas. Bastaria dizer que o Brasil ainda levará de 10 a 20 anos para promover níveis mais razoáveis de igualdade e bem-estar sociais.
Um exercício de pensamento reverso também ajuda a refletir sobre esta situação: alguém consegue imaginar, hoje, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, dizendo que "a França levará ainda de 10 a 20 anos para atingir o padrão de vida brasileiro"? E a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmando que "a Alemanha levará ainda de 10 a 20 anos para atingir o padrão de vida brasileiro"?
Isso, por não falar na pérola abaixo, que demonstra a força do mito de "Brasil, país do futebol", ao tempo que substitui as reflexões sobre desenvolvimento por reações aos estereótipos estabelecidos:
Esses depoimentos de Mantega e McWilliams demonstram que a cultura caminha devagar, com frequência de forma muito mais lenta do que as relações econômicas. Por isso, mais de um século de independência da República Brasileira parece não ter sido suficiente para que a mentalidade do cidadão se torne independente de fato.
“O Brasil tem superado os países europeus no futebol há muito tempo. Mas batê-los na economia é um novo fenômeno”, afirmou o chefe executivo do CEBR, Douglas McWilliams, responsável pelo relatório “Quadro da Liga Econômica Mundial”, divulgado ontem em todo o mundo. “Nosso estudo mostra como o cenário econômico global está mudando, com os países asiáticos e as economias produtoras de matérias-primas subindo na Liga, enquanto a Europa perde espaço”, completou.
O povo tem a coragem de querer ser campeão mundial só no futebol. Já a educação, o desenvolvimento social e a saúde "são outros quinhentos" — e, do jeito que as coisas caminham, vão ser necessários mais quinhentos anos para melhorar.
E,desse jeito, fica difícil o brasileiro estabelecer um verdadeiro diálogo intercultural, no que valorize sua própria identidade. Só partindo desse pressuposto poderá conversar com outros tratando-os como pares, trocando experiências e conhecimento para modificar a realidade e ampliar seus horizontes sem renunciar à cultura própria.
Finalmente, vale dizer que o discurso culturalmente colonizado não é exclusivo de personagens públicos, pois a comunicação política é apenas um reflexo da cultura popular e do seu complexo de inferioridade com relação aos países tradicionalmente vistos como "desenvolvidos". As referências estão em todo lugar. Por exemplo, em um outdoor que vi na cidade de São Paulo. Era a propaganda de um motel, cujo nome esqueci, mas não o slogan: "Sua noite de 1º mundo."
REFERÊNCIA
HESSEL, Rosana. Brasil tem 6º maior PIB do mundo, mas ainda precisa melhorar padrão de vida. Correio Braziliense, Brasília, 27 dez. 2011. Disponível em: < http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica-brasil-economia/33,65,33,3/2011/12/27/internas_economia,284219/brasil-tem-6-maior-pib-do-mundo-mas-ainda-precisa-melhorar-padrao-de-vida.shtml >. Acesso em: 29/12/2011.
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Sobre o blogueiro
Óscar Curros é consultor de negócios internacionais, especialista em comunicação intercultural, jornalista, tradutor e locutor.
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Nesse ponto, contradigo o famoso "The truth is out there" para dizer que a resposta que procuramos está aqui mesmo. Não adianta querer importar modelos que não atendem as necessidades e as peculiaridades do nosso povo. Há que se ponderar que vivemos sim numa economia globalizada, que há iniciativas que deram certo e que podem se encaixar à nossa realidade (outras não!), mas não se deve sonhar em ser a Europa. O Brasil é o Brasil, fruto de sua história, com seus erros, contradições e também tantos outros acertos, sua pluralidade cultural.
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